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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 21/01/2026 15:47 -

Faça as pazes com o espelho

 

Ronaldo Castilho

 

Há um gesto simples, quase automático, que acontece todos os dias e, ainda assim, tem poder suficiente para mexer com o rumo inteiro de uma história: o momento em que nos olhamos no espelho. Não é apenas um reflexo. É um encontro. Às vezes rápido, apressado, no meio da correria. Outras vezes demorado, carregado de pensamentos, comparações e cobranças que ninguém fez em voz alta, mas que já viraram costume dentro da nossa cabeça. O espelho, que deveria ser apenas um objeto neutro, muitas vezes vira tribunal. E, sem perceber, passamos a vida inteira nos julgando como se a sentença fosse inevitável.

Só que fazer as pazes com o espelho não tem relação direta com estética, padrões ou medidas. Isso é o que a superfície faz parecer, mas o verdadeiro conflito quase nunca está no que o vidro mostra. Ele está no que a alma sente quando o olhar encontra o próprio rosto. Duas pessoas podem olhar para a mesma imagem e enxergar coisas completamente diferentes. Uma percebe sinais de cansaço e entende que precisa descansar. Outra vê o mesmo cansaço e conclui que é fraca, insuficiente, incapaz. A diferença não está no espelho, está na narrativa interna. O espelho não fala. Quem fala é a voz dentro de nós. E é impressionante como essa voz, tantas vezes, é dura e injusta, exatamente com quem mais deveria receber cuidado.

Viver brigado consigo mesmo é um hábito silencioso. Ele começa pequeno, em pensamentos aparentemente inofensivos, em frases repetidas sem perceber, em comparações que parecem normais, mas vão corroendo a autoestima lentamente. Em algum momento, a pessoa deixa de se ver como alguém que está vivendo e passa a se enxergar como um projeto incompleto, alguém que nunca está pronto. E então se cria um ciclo desgastante: quanto mais a pessoa se cobra, mais se esgota; quanto mais se esgota, menos consegue; quanto menos consegue, mais se acusa. E o espelho vira o lugar onde essa acusação encontra rosto.

Talvez por isso o estoicismo, com pensadores como Sêneca e Marco Aurélio, continue tão atual. Eles afirmavam que boa parte do sofrimento não nasce apenas do que acontece, mas da interpretação que damos ao que acontece. A mente cria cenários, inventa derrotas, revive falas antigas, e depois entrega tudo isso ao coração como se fosse verdade absoluta. Fazer as pazes com o espelho é, nesse sentido, um exercício de liberdade: parar de acreditar em tudo o que a mente diz quando está dominada por medo, culpa ou insegurança.

O problema é que vivemos numa época em que as comparações ganharam vitrine. Antes, a gente se comparava com algumas pessoas ao redor. Hoje, com as redes sociais, a comparação se tornou infinita. O espelho deixou de ser apenas físico e passou a ser digital: fotos, vídeos, vidas editadas, rotinas filtradas, conquistas expostas. E nessa avalanche de versões perfeitas, o coração começa a acreditar que está sempre em falta. Não é só disputa por aparência, é disputa por valor. A pessoa sente que precisa provar que é interessante, desejável, suficiente, bem-sucedida, e quando não sustenta esse peso, volta para o espelho como quem volta para a própria derrota.

Mas o espelho não é inimigo. A guerra é interna. A autoestima, que muitos confundem com vaidade, na verdade é saúde emocional. Não é arrogância se respeitar. Não é narcisismo reconhecer a própria dignidade. Autoestima é o que impede alguém de aceitar migalhas como se fosse banquete. É o que dá coragem para dizer “não” quando algo machuca. É o que faz recomeçar sem humilhação. E isso não se constrói de uma vez, porque ninguém vira amigo de si mesmo por decreto. A autoestima é construída como uma casa: tijolo por tijolo, decisão por decisão.

A psicologia humanista, com Carl Rogers, defendia algo profundamente simples: o ser humano cresce quando é aceito, e principalmente quando se aceita. Isso não significa negar erros, mas parar de se odiar como método de transformação. O desprezo não educa, ele paralisa. O crescimento real nasce de uma mistura rara: coragem para enxergar a verdade e bondade para não se destruir por causa dela. Maturidade é olhar para a própria história e dizer: eu reconheço onde errei, mas eu não vou me reduzir a isso.

E aqui entra uma chave decisiva: antes de amar alguém, é necessário amar a si próprio. Pode parecer frase repetida, mas continua verdadeira porque muita gente insiste em ignorá-la. O amor que nasce de um coração ferido vira dependência, medo, insegurança. A pessoa tenta fazer do outro um remédio para a própria falta e transforma o relacionamento em um pedido constante de provas. Mas amor não é anestesia para ferida mal cuidada. Erich Fromm lembrava que amar é uma arte, e ninguém ama bem quando vive em guerra consigo mesmo.

Quando a autoestima está desorganizada, a pessoa aceita o que não deveria, tolera o que fere, se cala para não ser deixada, se adapta para não ser rejeitada. Vai diminuindo até que um dia nem se reconhece mais. Por isso, fazer as pazes com o espelho é uma reconciliação profunda: não com o rosto, mas com a própria existência. É olhar para si sem violência. É parar de repetir ofensas internas. É interromper o hábito de se diminuir. Porque honestidade sem humanidade vira crueldade. E humanidade sem honestidade vira mentira.

Nós somos complexos. Carregamos luz e sombra, coragem e medo, fé e dúvida. E talvez uma das dores seja achar que precisamos ser perfeitos para merecer paz. Mas a perfeição é uma miragem. O preço de persegui-la costuma ser alto: ansiedade, exaustão, culpa, medo constante de falhar. A pessoa não vive, ela se fiscaliza. E no fim percebe que passou anos tentando “merecer” amor, como se amor fosse prêmio, e não encontro.

Quando alguém decide fazer as pazes com o espelho, algo muda. As escolhas se reorganizam. A pessoa se torna menos refém da opinião alheia, menos dependente de validação, menos disposta a negociar a própria dignidade. Começa a entender limites e a respeitá-los. Descobre que maturidade não é endurecer, mas permanecer inteiro. Nietzsche falava do desafio de tornar-se quem se é, e isso exige coragem de abandonar máscaras que custam caro demais.

No fundo, a maior transformação acontece quando a pessoa decide ser o próprio lugar seguro. Talvez a vida continue difícil em alguns momentos, mas você pode escolher parar de se tratar como inimigo. Pode aprender a se perdoar pelo que entendeu tarde, pelo que fez sem maturidade, pelo que não conseguiu na época. Pode ter paciência com o próprio processo, porque ninguém floresce sob ameaça.

E se existe um gesto simples que representa essa nova postura, é justamente o momento diante do espelho. É olhar para si e, em vez de procurar defeitos como quem procura motivo para se punir, procurar humanidade como quem procura motivo para continuar. Reconhecer a própria trajetória e afirmar: eu estou aqui. Eu não desisti. Eu continuo tentando. Isso não é pouco. Isso é coragem.

O espelho continuará no mesmo lugar, todos os dias. Mas ele não precisa ser cenário de dor. Ele pode ser lugar de reencontro. Pode ser o começo de uma conversa mais justa. Pode lembrar que autoestima não é se achar perfeito, é se achar digno. Você não precisa estar no auge para merecer respeito. Seu valor não é um troféu que se ganha; é uma verdade que se reconhece.

Fazer as pazes com o espelho é, no fim, fazer as pazes com a própria existência. É parar de brigar com quem você é e começar a construir quem você pode se tornar sem violência, sem pressa e sem ódio. É entender que o reflexo nunca foi inimigo. O inimigo era a maneira cruel com que você aprendeu a se olhar. E quando essa maneira muda, muda tudo. Você passa a viver mais leve, não porque a vida ficou fácil, mas porque você parou de carregar a si mesmo como um fardo. E, a partir desse lugar, amar alguém deixa de ser tentativa de completar um vazio e passa a ser escolha de compartilhar uma vida que já tem sentido.

Ronaldo Castilho é Jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.

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