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Coluna: "Entre Aspas" com Ronaldo Castilho

Publicada em: 27/01/2026 15:41 -

Qual o seu propósito de vida? E por que tanta gente desiste antes de chegar lá

 

Ronaldo Castilho

 

Há perguntas que aparecem quando o barulho do mundo diminui. Elas não surgem no feed, nem na correria do trabalho, nem no meio do trânsito. Elas surgem no silêncio, às vezes no susto, às vezes na dor, às vezes numa alegria tão grande que a gente até se espanta. Uma dessas perguntas é simples, mas é perigosa: qual é o seu propósito de vida? Perigosa porque, quando a resposta não vem, a pessoa começa a se sentir atrasada, como se existisse um “destino oficial” esperando ser encontrado e, enquanto isso não acontece, tudo o resto fosse apenas espera. É aí que mora um dos maiores erros do nosso tempo: acreditar que propósito é um lugar onde se chega, e não um caminho que se aprende a atravessar.

A cultura da pressa transformou o propósito em produto, quase como um item de prateleira: “descubra o seu em cinco passos”. Mas a vida real não funciona como propaganda. Propósito não é um raio que cai do céu, não é um clarão místico que resolve tudo de uma vez, e não é um rótulo bonito para colocar na bio. Propósito é construção, é direção, é coerência entre o que se acredita e o que se pratica. Ele nasce do chão, do cotidiano, do que se repete quando ninguém está olhando. Aristóteles, lá na Grécia antiga, quando falava em eudaimonia (essa ideia de uma vida plena, florescida, bem vivida) não estava defendendo a felicidade como euforia ou prazer constante, mas como realização pela virtude, pelo caráter, por um tipo de excelência que se torna hábito. Em outras palavras, não basta saber o que se quer fazer; é preciso se tornar alguém capaz de sustentar o que se deseja fazer.

É aqui que aparece uma verdade incômoda, mas libertadora: muita gente quer o propósito, mas não quer o processo. Quer a medalha, mas não quer o treino. Quer o palco, mas não quer o bastidor. Quer a vitória, mas não quer a repetição. Quer o resultado, mas despreza a travessia. Só que propósito não se sustenta com emoção; propósito se sustenta com consistência. E consistência é uma palavra pouco popular numa época viciada em atalhos. O problema é que, quando alguém não aprende a amar o caminho, dificilmente chega ao destino. E quando chega, muitas vezes não consegue permanecer.

Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, deixou uma das ideias mais fortes sobre sentido da vida ao afirmar que aqueles que têm um “porquê” conseguem suportar quase qualquer “como”. A frase, tão repetida ao longo dos anos, não ficou famosa por ser bonita; ficou famosa porque é verdadeira. Quando o “porquê” é forte, o “como” não destrói. Quando o “porquê” é fraco, qualquer “como” derruba. É por isso que tanta gente começa projetos incríveis e abandona na primeira frustração. Não porque faltou talento. Mas porque faltou raiz. Propósito não é o que te empolga num dia bom; propósito é o que te mantém de pé num dia ruim.

O nosso tempo ama resultados e odeia processos. A gente quer aprender rápido, crescer rápido, enriquecer rápido, curar rápido, superar rápido. A paciência virou defeito, e a disciplina virou uma palavra antiga. Só que propósito mora em outro ritmo. Ele exige repetição quando não há aplauso, humildade quando não há reconhecimento, coragem quando não há garantia, e resiliência quando o plano falha. E isso explica por que algumas pessoas “descobrem” o propósito e mesmo assim continuam vazias: porque confundiram propósito com carreira, com status, com visibilidade, com elogio. Só que propósito não é fama. Propósito é direção. E direção não depende de plateia; depende de convicção.

A história, aliás, está cheia de vencedores que, na internet, parecem ter virado do dia para a noite, mas que na vida real atravessaram anos de invisibilidade antes do reconhecimento. Thomas Edison, antes de chegar a uma lâmpada comercialmente viável, testou inúmeras possibilidades e tratou as falhas não como humilhação, mas como parte do caminho. Michael Jordan, ainda jovem, foi cortado do time de basquete na escola e transformou aquela frustração em combustível para crescer.

J. K. Rowling enfrentou rejeições e dificuldades profundas antes de ver Harry Potter conquistar o mundo. Nelson Mandela passou 27 anos preso e não abriu mão daquilo que acreditava ser maior do que ele. O ponto em comum entre essas histórias não é sorte e nem um “dom mágico”; é a maturidade de entender que o processo não é castigo, é preparação. Propósito sem processo vira vaidade. Processo sem propósito vira sofrimento. Os dois juntos viram missão.

A vida não nos pergunta apenas “o que você quer ser”, mas “o que você aguenta sustentar”. Esse é o tipo de pergunta que ninguém gosta de ouvir quando tudo vai bem, mas que se torna inevitável quando a vida aperta. Porque, em algum momento, as circunstâncias mudam, o apoio diminui, a motivação falha, o corpo cansa, as críticas aparecem, e o que sobra não é entusiasmo; é caráter. Martin Luther King Jr. defendia que não importa apenas quanto tempo se vive, mas o quão bem se vive. E uma vida bem vivida não é uma vida sem dor, sem tropeços ou sem perdas; é uma vida com sentido. É ter motivos suficientes para continuar, mesmo quando não é fácil.

Talvez por isso o propósito quase sempre amadureça quando a vida deixa de girar em torno do próprio umbigo. Existe uma armadilha muito comum em quem procura propósito: achar que ele será uma resposta totalmente individualista, como se a grande missão da existência fosse apenas “me realizar”. Só que propósito, quando é verdadeiro, transborda. Ele nasce quando o “eu” encontra um “nós”, quando a pessoa percebe que sua história ganha força quando serve a algo maior do que suas vaidades e seus medos. Em muitos casos, o propósito se revela menos como uma frase bonita e mais como um serviço prático: quem se beneficia quando eu faço o meu melhor? O que melhora no mundo quando eu decido não desistir?

E é aqui que a realidade costuma colocar o dedo na ferida: o propósito raramente vem acompanhado de glamour. Ele quase sempre vem acompanhado de tarefas repetitivas. Quem quer transformar vidas vai ter que ouvir histórias difíceis todos os dias. Quem quer construir algo sólido vai ter que lidar com burocracia, pressão e falhas. Quem quer ser referência vai ter que estudar quando ninguém está vendo. Quem quer ter família saudável vai ter que aprender a conversar, ceder, perdoar e recomeçar. Muita gente confunde propósito com prazer constante, mas propósito, muitas vezes, tem cara de cansaço e ainda assim vale. Porque propósito não é feito só de paixão; é feito de paciência.

Talvez, então, a pergunta “qual é o seu propósito?” esteja incompleta. Em vez de procurar uma resposta pronta, talvez seja mais honesto buscar sinais no caminho. Que problema eu estou disposto a enfrentar por muitos anos? Que tipo de dor faz sentido para mim? O que eu faria mesmo se ninguém aplaudisse? Que legado eu gostaria de deixar, nem que seja em coisas pequenas? Porque propósito nem sempre é grandioso; às vezes ele é simples e profundo.

No final, propósito não é só sobre chegar; é sobre permanecer. Não é um evento, é uma fidelidade diária ao que se acredita. E a grande diferença entre quem realiza e quem só sonha é esta: o vencedor não é o que nunca cai, é o que não usa a queda como desculpa para desistir. O processo é o preço, o propósito é o sentido, e a vida, no fundo, é esse encontro: sentido suficiente para continuar quando ninguém está vendo, quando não há aplauso, quando dá vontade de parar. Porque quem tem um “porquê” forte, suporta quase qualquer “como”.

Ronaldo Castilho é Jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.

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