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Coluna: Adriana Passari fazendo histórias - 03-04-2026

Publicada em: 03/04/2026 08:00 -

Por Adriana Passari - @adrianapassari

 

A borboleta azul

 

Virando a página 65 do livro de suspense foi a sua primeira aparição. Lá estava ela, no diálogo com o personagem desaparecido misteriosamente e dado como morto há mais de 20 anos. Descrita como uma borboleta azul índigo de pétalas “explodindo”, uma imagem num postal. Uma cena que poderia passar despercebida ao longo do romance ficcional com mais de 400 páginas.

O choque foi causado pelo momento da leitura tensa, nervosa pelas próprias causas de sua vida atual, percebeu que o marcador de livros que utilizava para acompanhar cada descida de linha, curiosamente continha a mesma borboleta azul, tal e qual a obra em suas mãos. Um marcador aleatório, pego às pressas em meio a tantos outros no suporte deixado na estante de livros.

E a borboleta voou da página do livro, saltou no marcador e pousou nos seus pensamentos que agora farfalhavam de assombro e uma ansiedade irracional.  Virou os olhos ao redor de si vasculhando pelos cantos do cômodo em busca daquele bater de asas que tinha certeza de encontrar.

Fechou cautelosamente o livro com receio de que a ameaça deixasse o papel amarelado voejando em sua direção. Sabia que era um temor descabido, mas as suas emoções estavam afloradas e os seus sentidos alertas. Respirou fundo uma e outra vez, em busca do controle perdido.

Com movimentos suaves como quem invade um templo sagrado sem permissão, ela coloca os pés descalços no chão, levanta-se da poltrona e medindo cada passo com precisão, passa pelo pé da escada da entrada da casa e faz o trajeto até a caixa de remédios em cima do balcão da cozinha.

Evitando qualquer barulho, retira uma embalagem contendo um comprimido lilás e o engole. Tem medo do caminho de volta e escolhe seguir em frente. Desvia pela área de serviço e avista novamente a escada. Espia rapidamente, com uma curiosidade mórbida para a sala onde deixou o livro fechado e virado com a capa para baixo.

Logo desvia o olhar e fecha os olhos comprimindo fortemente as pálpebras como se pudessem apagar as imagens na sua mente.

A borboleta não está lá, no livro, nesse momento, mas se mantém ativa, com seu bater de asas,  suspensa, como que parada no alto dos seus pensamentos.

Abre ligeiramente os olhos, apenas o suficiente para enxergar os degraus tão conhecidos e escapar para a segurança do seu quarto. Fecha a porta sem alarde mas continua segurando com força pelo lado de dentro. Inspira, expira, respira com regularidade, suspira. Deita-se na cama e acaba vencida pelo sono reparador.

Ao abrir os olhos já é manhã, despertou um novo dia e um certo desejo obscuro de vislumbrar novamente aquele misterioso azul.

 

Ouça a história na voz de Adriana Passari:

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